Tafuiado entre as pesadas vestes que o protegia, se via tão somente parte do rosto magro com traços de desconfiança que se protegia pela surrada touca de lã. Por vezes, sua mão com movimentos lerdos tentava em vão tirar o chumaço de cabelo que lhe caia por sobre olhos pondo se a atrapalhar a visão. Seu olhar, deixava transparecer sua total falta de confiança. Talvez por sua história, vivida pelos desprezos acontecidos pelas tantas pessoas que por ele passaram sem que percebessem sua existência.

Eu também passei, mas comigo levei um forte desejo de realizar alguma coisa que meu coração me ordenava. 

A noite avançava, e o mais breve retornei querendo muito que ele ainda lá estivesse. 

Havia levado comigo, três sanduiches, uma garrafa de leite quente e o desejo de poder praticar meu gesto anônimo de bondade. A mim só mesmo o avançar das horas e frio, deveriam ser a única testemunha. 

As mãos apressadas pela fome, se estenderam apanhando o pacote de onde tirou apressado um sanduiche. Seus olhos  brilharam…  suas bocadas, eram de quem há muito esperava o que comer. 

Com movimento ágil foi comendo até que se acabasse o segundo sanduiche. Com o olhar perdido buscou o fundo do pacote em busca da garrafa. 

O chumaço de seus cabelos fora afastado de seus olhos pelo movimento da cabeça que se levantara para tomar o leite quente. Leite tomado, buscando a fresta de luz do poste ele tentava enxergar o fundo da garrafa para a certeza de que nada ter sobrado.  

Aninhou com lentidão a garrafa e o pacote que lentamente era amaçado e guardados dentro de um embornal.  Buscou com um certo gesto de timidez olhar dentro dos meus olhos e aí, simplesmente sorriu. 

Eu estendi a mão em sua direção, mas ele arredio deixou de sorriso. Eu sorri e ele entendeu, trouxe sua mão e apertou a minha num gesto de quem havia se sentido uma vez mais quem sabe, um ser humano 

Autoria: Osmar Sarabia Garcia

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