Dono de um semblante severo, tinha por hábito ficar por horas, sentado na cadeira que ladeava a mesa de cor escura, onde sobe um bloco de papel, fazia repousar os óculos de armação escura de aspecto pesado.


A mão que sempre inquieta, fazia girar com toques lentos e coordenados pelas pontas dos dedos, a caneta de pena reluzente e de cor riscada em marrom e amarelo o que a nos fazia lembrar uma cobra.


Salvo engano, ele usava um anel discreto que lhe adornava a mão esquerda.

Eu em companhia de minha inseparável irmã – Irene-que pela obediência de nossa mãe, colocava-nos na necessidade de passar por diante da porta da sala que sempre permanecia aberta.

Espertos, sondávamos todas as possibilidades e sempre com a esperança de sua ausência.


Buscávamos no silêncio, tentar ouvir se o ruído peculiar da tal caneta estaria a girar sobe a mesa. Sem o barulho a certeza de que ele ali não estava.


O medo terminou por nos ensinar de que deveríamos evitar até mesmo olhar para ele.


Por mais que evitássemos ele nos via, e logo ouvíamos o som característico de seu limpar a garganta que provocava um barulho que nos ordenava a passar mais rápido e sem tempo ou necessidade de olhar em sua direção.

Triste mesmo, era lembrar de como ficávamos tristes por estar chegando o dia de nossos aniversários.


Certamente, alguém o lembrava, ele não esquecia. Nós chamava e sem se dar o trabalho de se levantar da comodidade de sua cadeira, e nos perguntava quantos anos estávamos fazendo. O quanto era o número de anos às vezes que ele sem controle e longe de qualquer carinho, puxava nossas orelhas quase nos levantando do chão. Assim que conseguíamos nos desvencilhar, corríamos assustados em busca da proteção de nossa mãe.

Foram muitas as histórias ali vividas; marcadas pelo tempo em que morávamos na pequena casa dos fundos.


O que jamais consigo me lembrar, foi de tê-lo visto sorrir ao menos por uma vez.


Na minha memória, ainda ouço o som chiado que saia do pequeno rádio que ficava sobe uma cristaleira.


Era está a outra forma de nos garantirmos que ele estaria em pé e de costas para a porta à procura de ouvir as notícias.

Bem mais tarde, meu querido pai, terminou me presenteando com o tal rádio da cristaleira. Um presente que ainda hoje conservo com muito carinho.

Ao entregar-me, meio que em cerimônia, me fez sentar e me contou:

O ano, 1948, quando ele em companhia de meu avo Salvador, foram até a cidade de Londrina para comprar aquele rádio. (o da foto)

A viagem na época, não era lá tão agradável.
Somados ao desconforto e os tantos sacolejos da jardineira (ônibus antigos), a ida e volta tornara-se uma verdadeira aventura.

O sol quem mal começava a surgir naquele dia e já haviam percorrido bons quilômetros pela sinuosa estrada de terra que separava Apucarana de Londrina.


Depois de um dia cansativo já ao escurecer, conseguiram chegaram em casa.

O resultado, foi poder trazer para casa a grande novidade que por tempos tornou se uma atração para os tantos curiosos que sem nada entender, achavam graça e comentavam como era possível ouvir vozes de pessoas saindo de dentro daquela caixinha tão pequena.


Tornou se comum aqueles que se julgavam mais próximos buscarem desculpas e visita-los só para ver se era verdade a tal caixinha que além de falar ainda tocava músicas.

Mas com suas atitudes metódicas sem demora e com cara de poucos amigos, seu Salvador dizia já estar no avançar da hora, desligava o rádio fazendo com que todos que ali estavam saíssem meio que resmungando e tomassem o rumo de suas casas.

Ao me confiar o aparelho meu pai falou-me: filho, é muito bom quando temos conhecimento da história e é melhor ainda, quando podemos conservar objetos que fizeram parte desta mesma história. Pois, quando alguém lhe perguntar: O que é isso? Ai, sentamos e lá sem muita pressa, passamos a contar com riquezas de detalhes as tais histórias.

Hoje, a única certeza que levo de tudo isso, é a de que o tal rádio que conta com bem mais de 75 anos, certamente está pronto a continuar fazendo  parte da nossa história.


Certamente, em algum momento, estaremos  encerrando a nossa passagem por aqui. Enquanto o pequeno rádio, ainda seguira pronto a dar notícias e a tocar boas melodias. 

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3 Responses

  1. Como prometido, acessei sua página e estou percorrendo e lendo os textos.
    O conto do rádio ~e muito bom, e com certeza, muitos se identificarão com essa historia, inclusive eu.
    Abraços e

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